domingo, 7 de fevereiro de 2010

Memória do Futebol Pernambucano - Tramways - O Furacão elétrico


O Tramways, time sustentado pela então companhia elétrica e de transportes do Recife, passou sem pedir licença. Como um furacão, causou estragos aos adversários nos sete anos em que esteve na elite do futebol local. Mantém até hoje uma exclusividade: é bicampeão invicto do Campeonato Pernambucano. Mas desapareceu da mesma forma, rapidamente.

Despachando no escritório central, que ficava na esquina da Rua Aurora com a Princesa Isabel, Domingos, Furlan e Rubinho. Na seção de energia, o ponteiro Olívio. O goleiro Zé Miguel ficava até altas horas da noite como chefe de quarto do departamento de luz. Sopinha, Guaberinha, Paisinho e Faustino exerciam outras funções na empresa. O entrosamento na inglesa Pernambuco Tramways and Power Company Limited, que foi concessionária dos serviços elétricos e de bondes do Estado durante 50 anos (até 1962), deu origem ao primeiro, e até hoje único, bicampeão invicto da história do Campeonato Pernambucano.

No biênio 1936/37, foi o Tramways Sport Club quem deu as cartas no certame local. O tricolor transviário – vestia branco, azul e vermelho –, não perdeu uma partida sequer nesses dois anos em que derrubou o trio de ferro Sport, Náutico, Santa Cruz, além do América, que na época, ainda tinha muito prestígio. Como o próprio nome indicava, o Tramways era patrocinado pela empresa inglesa, que foi responsável pela transição dos bondes puxados por burros para os elétricos, na primeira metade do século 20. Daí, a equipe de futebol também ser conhecida como os “elétricos”.


NÃO SE SABE A SEQUENCIA. ZÉ MIGUEL, DOMINGOS, JORGE, ZEZÉ, FURLAN,FAUTINO, ALCIDES, BERMUDES, SOPINHA, QUETRECO, e OLIVIO.
Campeão pernambucano de 1936.

De uma certa forma, pode-de dizer que o Tramways foi o primeiro clube-empresa do futebol brasileiro. Brincadeiras à parte, a relação era bem curiosa. Na época, o profissionalismo ainda não tinha se consolidado em Pernambuco. A maioria dos “pebolistas” ainda não tinha contrato e não recebia dinheiro para jogar futebol. Mas no caso dos elétricos, a situação era um pouco diferente. “Muitos jogadores jogavam pelo Tramways em troca de emprego na empresa. Era uma espécie de amadorismo marrom, já que os atletas tinham sim salário, não pelo futebol, mas pelas funções que exerciam na companhia inglesa”, destaca o cardiologista e escritor Rostand Paraíso, que em 1997, lançou o livro Esses Ingleses, no qual comenta a presença e a influência inglesa no Recife.

Muitos dos jogadores que vestiram a camisa do Tramways também atuavam em times de bairros, na Liga Suburbana, que era muito forte na época. Casos de Zé Miguel, Olívio, Paisinho e Quetreco. Mas para ser bicampeão estadual foi preciso também tirar do Santa Cruz Zezé, Júlio Fernandes e Alcides Cachorrinho, que marcou 56 gols pelo Tramways em Pernambucanos, tornando-se o maior artilheiro da equipe na história da competição. Com dinheiro de sobra, o técnico Joaquim Loureiro veio de São Paulo para armar a equipe.

Os elétricos disputaram sete estaduais, de 1935 a 41. O primeiro título, em 1936, foi tumultuado. Mesmo ainda faltando 16 partidas para o fim da competição, os clubes e a Federação Pernambucana de Desportos resolveram encerrar o certame. Com sete pontos a mais do que Náutico e Santa Cruz, o Tramways foi declarado campeão. Sua última partida foi contra o Sport, o qual derrotou por 3x2, com dois gols de Sopinha e um de Olívio. Foram 11 vitórias e dois empates.


O TIME FOI CAMPEÃO PERNAMBUCANO EM 1937 VENCENDO O SPORT POR 5X2,
ERA FORMADO POR: ZÉ MIGUEL, DOMINGOS E ERNESTO; GUABERINHA, PAIZINHO E FURLAN;ALCIDES, OMAR, NAVARRA (SOPINHA), QUETRECO E OLÍVIO.

Mesmo com a campanha muito superior a dos rivais, ainda ficou a dúvida se o time teria fôlego para se manter na ponta, caso a competição seguisse até o final. Por isso, no ano seguinte, os transviários fizeram uma campanha ainda mais arrebatadora, para dizimar quaisquer dúvidas: 14 vitórias e apenas um empate. Sessenta e quatro gols marcados e 16 levados. A prova da superioridade do Tramways foi a goleada aplicada no Sport, por 5x2, no jogo que ratificou o título. Olívio, Navarra, Alcides, Quetreco e Sopinha marcaram os tentos dos elétricos.

Até 1941, quando disputou o seu último Estadual, o Tramways seguiu fazendo um papel digno. O fim da equipe foi assim explicado por Haroldo Praça, em seu livro O Gôl de Haroldo, de 2001. “Não obstante reunir bons jogadores e armar equipes destacadas, o ‘elétrico’ foi vitimado por moléstia incurável: clube de dono (Antônio Rodrigues de Souza, diretor da empresa britânica, responsável pelo investimento na montagem dos times de 1936/37). E aí começou a entrar para a história mais uma aparição brilhante efêmera.”


Gol do Tramways no Campo do Prado em Fortaleza, durante excursão à Fortaleza em 1941.

Bermudes: argentino muy boêmio, mas bom de bola

Na trajetória do primeiro título estadual do Tramways, em 1936, um jogador merece um capítulo à parte. Dono de um potente chute, de causar medo nos goleiros, como diziam os jornais pernambucanos da época, o argentino Bermudes foi um dos pilares da inédita conquista do grêmio transviário. Tanto que acabou se transferindo para o Náutico, onde integrou o time que foi campeão pernambucano em 1939, o segundo da história alvirrubra, ao lado dos Carvalheira: Fernando, Zezé e Emídio.

Em 13 jogos pelo Tramways no Estadual de 36, o meia-direita Bermudes fez 19 gols, cravando o seu nome na galeria dos artilheiros do Campeonato Pernambucano. Náutico, Sport e Santa Cruz sofreram nas mãos, ou melhor, nos pés do gringo, que balançou a rede do trio de ferro. O Torre, principal rival do Tramways, era sua vítima favorita. Na goleada por 8x4 sobre o Madeira Rubra, Bermudes fez a metade dos gols dos transviários.

Ao todo, juntando os Estaduais de 1935 e 36, Bermudes marcou 32 gols pelo Tramways – terceiro maior goleador da equipe no Pernambucano, atrás de Alcides Cachorrinho (56 gols) e Olívio (46). O sucesso nos elétricos fez com que o Náutico o contratasse. No Timbu, ele foi novamente campeão pernambucano, em 1939.

Companheiro de Bermudes nessa conquista, o goleiro Djalma, 90 anos, lembra com muita saudade do amigo. “Bermudes era formidável, um grande amigo. Dançava muito bem tango. Um dia, chegou a notícia de que ele havia morrido. Pedi licença a Cabelli (Umberto, técnico uruguaio, que comandava o Náutico) e fui para a pensão onde ele morava. Chegando lá, o encontrei no chão, envolto a cigarros e bebida, mas estava vivo. Então, entrei em contato com a família dele, e o seu pai mandou dinheiro para mandá-lo de volta a Buenos Aires”, relata.

Nos anos 50, o ex-arqueiro alvirrubro foi à capital argentina somente para rever o amigo. “Em 1953, nos encontramos em Buenos Aires. Ele estava trabalhando como locutor de rádio. Foi a última vez que nos vimos”, relembra Djalma, que soube da morte do amigo anos depois, através de uma carta enviada pelo esposa do argentino, Helena.

Pelo Náutico, Bermudes anotou 12 gols pelo Estadual de 39. No ano seguinte, porém, anotou apenas dois, ambos em amistosos.

Fonte: Jornal do Comércio/PE, Futebol de Pernambuco em Fotos e Blog do Roberto.zip.net